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16/01/2019

Moedas digitais: investimento seguro?

Bitcoins são as mais populares no mercado, mas existem dezenas de criptomoedas circulando

Uma moeda que não existe no mundo físico, é processada por uma rede de computadores e códigos criptografados, depende de uma sofisticada tecnologia de cadeia de blocos, difícil de ser rastreada, não precisa de regulamentações de governos e do sistema bancário, tem uma limitação na emissão de unidades e sofre flutuações para cima e para baixo em curtos períodos de tempo. Essas são algumas características das bitcoins (e outras criptomoedas), que têm despertado a atenção de muita gente no Brasil e no mundo com a promessa – ainda não cumprida em sua totalidade – de substituir transações com meios de pagamento tradicionais.

A Bitcoin (BTC) é a moeda digital mais conhecida. Em setembro, uma unidade estava cotada em US$ 6.280. O mercado brasileiro movimenta pouco mais de 1% do volume mundial. Já existem mais de 30 exchanges (corretoras) comercializando bitcoins e outras, com 1,4 milhão de investidores – superando até mesmo o mercado de ações que possui cerca de 600 mil aplicadores.

Uma pesquisa recente, feita para a conclusão de curso de Administração de Empresas da FGV-SP, detectou o perfil desses investidores brasileiros: jovens, arrojados, com renda mensal de até R$ 5 mil, que buscam ganhos financeiros em longo prazo. Quem compra moeda digital considera o ativo uma boa alternativa ao sistema bancário convencional, com muitas taxas e regulamentos. No estudo dos alunos da FGV, a bitcoin é a moeda mais procurada entre os 428 entrevistados (85,8%).

Como surgiu

As criptomoedas nasceram do interesse de um grupo de especialistas em criptografia por uma nova base tecnológica e econômica no mercado financeiro global que, em 2008, entrou em colapso. O surgimento da bitcoin foi providencial nesse momento em que era necessário proteger o patrimônio dos investidores contra perdas. O especialista em criptografia com pseudônimo Satoshi Nakamoto publicou sua teoria sobre um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto, detalhando o conceito de criptomoeda. O conceito foi colocado em prática em 2009. A segurança era a criptografia e a descentralização das transações por vários computadores e softwares numa cadeia de blocos (blockchain), o que impedia rastreamentos. A partir daí, Nakamoto criou as primeiras 50 moedas.

João Canhada, CEO da Foxbit, uma das três principais corretoras de bitcoins no País, informa que hoje o número da moeda em circulação chega a 17,5 milhões e chegará a 21 milhões de unidades em 2140. “Por ser escassa e com limite de emissão, tende a se valorizar”, diz Canhada. Mas a bitcoin e outras criptos não estão imunes a quedas bruscas, como acontece com qualquer aplicação de risco. No início de 2018, ela se desvalorizou mais de 50% em relação a dezembro de 2017, quando atingiu o teto de US$ 17.550 a unidade. Houve muita gente que se desfez da BTC no final de 2017 aproveitando a alta.

Para se ter ideia do impacto delas, a revista Forbes divulgou, em 2018, uma lista com 19 bilionários de criptomoedas, entre eles executivos de bancos e criadores de moedas digitais.

joao_canhada__ge44-moedasdigitaisJoão Canhada, Ceo da Foxbit

Ganhando espaço

Embora careça de uma legislação específica ou regulamentação, e ser vista com desconfiança pelo sistema bancário (é a preferida de hackers e cibercriminosos), as criptos seguem ganhando espaço. Neste ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorizou os fundos de investimento a adquirirem cotas em diversas moedas digitais, mas ressaltou que é preciso “tomar cuidado com manipulações de preços e operações fraudulentas”.

Em setembro, a XP Investimentos, a maior corretora do País, decidiu criar uma divisão para negociar bitcoins e Ethereum. Como o banco Itaú detém 49,9% da XP, isso dá mais confiança aos investidores. Já a Câmara Federal criou uma comissão especial, no ano passado, para debater a regulamentação das moedas, propondo que elas sejam fiscalizadas pelo Banco Central. “Regulamentar seria matar o conceito da moeda cuja premissa é a descentralização e pulverização”, observa Arthur Igreja, especialista em inovação e tecnologia e professor da FGV. Igreja não compra bitcoins por achar que elas ainda estão num estágio de maturação baixo, mas não descarta que podem ter um futuro promissor.

Há, por exemplo, riscos de vazamentos e invasões em corretoras, que já ocorreram em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, expondo identidades de investidores e até roubos. E essa segurança vai depender da estrutura de TI adotada pelas empresas. “Problemas similares ocorrem também com correntistas de bancos, que têm um mercado muito regulado, maduro e seguro”, diz Canhada, da Foxbit, que atende 400 mil clientes.

O advogado especialista em mercado financeiro e fintechs Aloisio Matos alerta que o investidor precisa saber de quem está comprando, se são empresas de alguma tradição (no Brasil, as exchanges foram criadas há apenas quatro anos). “O mundo digital é assim mesmo, as empresas se protegem dos vazamentos, mas os hackers se aprimoram e elas precisam colocar mais uma camada de segurança”, afirma Matos. Ele investe um percentual baixo em bitcoins e se desfaz nos momentos bons, mas sabe dos riscos por ser um mercado muito especulativo.

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Arthur Igreja, especialista em inovação e tecnologia e professor da FGV

Quem aposta

Adriano Gomes, supervisor de Marketing do grupo Bitcoin Banco, do Paraná, lembra que “registros de compra e venda da moeda ficam no mais seguro sistema de armazenamento do mundo, o Blockchain”, e, apesar de não ser reconhecido pelo governo, não é um segmento abandonado porque as exchanges precisam ter uma conta em instituição financeira para fazer a transferência ao cliente.

O grupo paranaense foi o primeiro a criar uma sede física de banco para atender detentores de bitcoins. O grupo também adquiriu, recentemente, duas exchanges e a imobiliária TagMob que aceita a moeda para o pagamento de uma caução de aluguel.

O site Coinmap.org mapeia 13.600 locais que aceitam criptos como pagamento no mundo. No Brasil, desde janeiro, a marca de roupas masculinas Reserva está aceitando a moeda para compras online, segundo o gerente de Tecnologia Rodrigo Berutti. “Queremos disseminar a cultura para quem tem o ativo e queira comprar nossos produtos.” O resultado vem superando as expectativas e já corresponde a 3% das vendas feitas com outros meios de pagamento, informa Berutti. “Trouxemos um público novo para as lojas”. Se o cliente gastar R$ 270, ele vai usar 0,01 BTC (cotada a R$ 27 mil em setembro) para pagar. A Reserva acredita tanto nesse mercado que não se desfaz do ativo, guarda em sua carteira virtual.

TIRA-DÚVIDAS

Bitcoins
São arquivos digitais criados por um sistema de mineração complexo envolvendo milhares de computadores.

Blockchain
Rede onde as moedas ficam registradas em blocos.

Exchanges
Corretoras online para negociar a compra e venda. As exchanges usam bancos físicos ou digitais para depositar o dinheiro do investidor. A partir de R$ 100 se pode comprar frações da bitcoin.

Cotação da bitcoin
Valor definido pela oferta e procura. Há mais procura do que oferta porque a bitcoin tem uma quantidade limitada a ser minerada – hoje são 17,5 milhões em circulação.

Riscos
Invasões nas exchanges com vazamento de dados. Incerteza regulatória. E perdas de senhas, se isso acontecer, as moedas ficam perdidas para sempre.

* Este é um conteúdo da revista Gestão Empresarial nº 44. Para acessar a edição na íntegra, clique aqui.