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Gestores necessitam do conhecimento tecnológico, mas aprendizado fundamental é sobre como pensar4min tempo de leitura

Novas técnicas são ferramentas, não as principais competências da formação profissional, afirmam especialistas

Autor: da Redação

As novas tecnologias estão constantemente influenciando os modelos administrativos, exigindo que os gestores estejam sempre atualizados. É um cenário moldado pela urgência: técnicas que serviam bem até ontem são obsoletas hoje. Há um aprendizado, porém, que permanece constante e indispensável, como aponta o professor da área de currículos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e ex-secretário municipal da Educação da cidade de São Paulo (2001-2002), Fernando José de Almeida.  

“Há algumas coisas na formação profissional que não mudam. As tecnologias entram [na formação] como elementos para melhorar aquilo cuja necessidade não muda, que é o pensar”, diz Almeida. “O pensamento não tem modernidade nem antiguidade, é uma forma de olhar e interpretar o mundo, de se posicionar, que é própria do ser humano. É a essência do conhecimento.”  

O professor questiona, inclusive, como a questão da rapidez é tratada no ensino de gestão. “O tempo é uma coisa muito fundamental na administração. Sempre se quer economizar tempo. No entanto, a economia de tempo leva à péssima finalização de muitas coisas. Uma tomada de decisão pode ser rápida, o que não quer dizer que seja boa – pelo contrário, pode ser ruim”, afirma.  

A coordenadora de recursos humanos da Eaco Contabilidade, Mayra Talacimo, diz que cursos que aplicam a andragogia, uma técnica de ensino voltada a adultos, são excelentes para desenvolver o raciocínio.  

“A própria formação superior, normalmente não nos ensina o mais importante, que é pensar. Cursos que usam a andragogia são totalmente diferentes. Você sai com outra visão, que não teria se ficasse só na parte técnica”, diz Mayra. “Tendo uma visão mais ampla, conseguindo enxergar além do ‘quadradinho’, o gestor consegue ser parceiro estratégico efetivo do negócio”, afirma.  

Equilíbrio na tomada de decisões 

Para Fernando José de Almeida, boas decisões são pautadas pelo olhar mais atento ao outro e pelo atendimento mais acolhedor, úteis não somente para a sociedade como um todo, mas para o sucesso da empresa em si.

 “A economia e a administração, muitas vezes, confundem as conquistas advindas da tecnologia como algo próprio da sua área de conhecimento”, destaca. “Nesse sentido, o [verdadeiro] grande planejador, o estrategista da administração de empresas, tem de caminhar com estas duas pernas: a do que é essencial, coerente com a sociedade e a dignidade humana, e a da celeridade do acesso às informações e da tomada de decisões.”  

“Nem todo o lucro é bom para a empresa. Você pode matar a galinha dos ovos de ouro”, afirma o professor da PUC-SP, sobre o cuidado que o gestor precisa ter em relação aos colaboradores. “É o que o [Henry] Ford, em 1920, já defendia: ‘Tenho de ter uma empresa que produza algo que meu funcionário possa comprar. Se não for assim, tem algo errado.”                

Almeida lamenta, porém, que o ensino superior esteja tomando o rumo exatamente oposto, que pode prejudicar o desenvolvimento brasileiro. 

“Nos últimos três anos, o mercado público de formação universitária, que corresponde a 84% do atendimento da população brasileira, está vorazmente se direcionando para fornecer uma formação muito vazia, rápida, meramente com a finalidade de gerar lucro para a empresa”, critica. “As instituições superiores brasileiras oferecem, muito frequentemente, a formação para a pessoa, para possibilitar apenas que ela entre no mercado. E uma universidade não tem essa função, mas, sim, a de fazer a formação das bases de conhecimento de um país”, conclui. 

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